Realidade virtual chega à Quinta Alegre para ajudar a resolver problemas reais
Teresa navega pelas ruas de Paris, enquanto Sofia está no cimo de um monte com vista privilegiada para as praias do Rio de Janeiro. Ao lado, António vai mexendo as mãos ao som de música clássica, numa sala de espetáculos na Finlândia. Mas como foram lá parar estes utentes da Quinta Alegre? E se tudo acontecer no mesmo espaço, sem que seja preciso sair da cadeira? Tudo isto é possível através de realidade virtual, que começa agora a ser utilizada na Estrutura Residencial para idosos da Quinta Alegre, da Misericórdia de Lisboa.
O projeto que está a ser desenvolvido pela Unidade de Transformação Digital, da Direção de Estudos e Planeamento Estratégico da Santa Casa (DIEPE) havia sido anunciado em setembro último. A ideia surge de um desafio colocado pelo provedor da instituição, Edmundo Martinho, que no seminário “Transição para o Digital na Santa Casa”, revelou que a Misericórdia de Lisboa estava a preparar um projeto com recurso à realidade virtual.
“Senhor António, tem de mexer a cabeça para os lados para poder ver o concerto todo, a sala toda. Isto é 360 [graus]”, sugere a terapeuta ocupacional, Marina Vazão, que, logo de seguida, dirige um alerta à utente Sofia Silva: “Convém sentar. Isto é tão real que às vezes pode dar a sensação de que estamos a cair”. E aconteceu: “Estava numas montanhas, em Itália, tão altas, tão altas que parecia que ia cair. Já viu como isto é formidável? Parece que estava mesmo lá e, afinal, foram estes óculos que me levaram até lá”, explica Sofia Silva.
Ao fundo da sala, Teresa, que há pouco via “ruas conhecidas de Paris”, exclama: “Estou a viajar sem gastar dinheiro! Estive na Torre Eiffel e em outros sítios de Paris que, em tempos, visitei. Vi pessoas a passearem junto ao rio”. Mas não só de passeios por cidades outrora visitadas – ou desconhecidas – se faz este projeto. Há todo um manancial de hipóteses que a realidade virtual permite e que a Santa Casa quer explorar, através de viagens no tempo que despertam memórias.
“Também vimos hipóteses de ter conteúdos direcionados, consoante o utente, e ir buscar memórias específicas daquela pessoa: sítio onde cresceu, onde casou ou onde os filhos cresceram”, revela a responsável pela Unidade de Transformação Digital da Santa Casa, Ilda Marcelino.
Teresa, António e Sofia são apenas alguns dos utentes que podem beneficiar deste projeto. Ultrapassada a fase piloto e após avaliação da equipa responsável, a realidade virtual poderá ser uma realidade em outros equipamentos da Santa Casa. “É o que me faz sentido. Temos de avaliar e tentar perceber se é uma solução para todos os utentes ou não. Já estabelecemos aqui alguns fatores de exclusão, tendo em conta o perfil do utente”, refere Ilda Marcelino.
“Colocar a tecnologia a nosso favor”
A DIEPE “sabe das potencialidades da realidade virtual” e do que pode vir a acontecer, mas para Ilda Marcelino, uma coisa é ver uma proposta na teoria, “outra coisa é colocá-la em prática”. Para já, está decidido “ver como é que as pessoas reagem durante a fase piloto, quais são as verdadeiras potencialidades e depois tomar as grandes decisões a partir daí”.
O pontapé de saída deste projeto deste projeto digital está dado, mas o objetivo é, depois de uma avaliação, conseguir encontrar mais respostas através da tecnologia. Ilda Marcelino pretende ir mais além, passando da fase lúdica para uma fase de estimulação e avaliação cognitiva.
“Aquilo que pretendemos é que este projeto nos leve para uma área de estimulação e avaliação cognitiva. Neste momento, os conteúdos são lúdicos e de entretenimento. Não são conteúdos com os quais possamos tirar conclusões relativamente à condição dos utentes, mas o objetivo é caminharmos para aí porque essa é uma das potencialidades da realidade virtual”, explica ainda a responsável.
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