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“O direito ao colo não é negociável”: Santa Casa debate proteção familiar antes da rutura

“O direito ao colo não é negociável”: Santa Casa debate proteção familiar antes da rutura

Na tarde de quinta-feira, 28 de maio, a Casa do Impacto reuniu profissionais, especialistas e uma família de acolhimento para uma sessão do ciclo Conversas com Impacto dedicada a um tema que raramente sai das estatísticas para ganhar rosto: a proteção das crianças antes que a rutura aconteça. O título escolhido, “Famílias, rede e proteção: quando chegamos a tempo?”, não era neutro. Era um desafio.

Ação social

pessoas em plateia na casa do impacto assistem a conversa sobre acolhimento familiar

Nuno Comando, diretor do Departamento de Empreendedorismo e Economia Social e da Casa do Impacto, abriu o encontro lembrando o propósito do espaço: criar pontes entre a Santa Casa, o empreendedorismo e outras organizações, através de conversas mensais. O tema do dia, sublinhou, “está no coração da missão da Santa Casa”. E deixou o mote: proteger não pode ser apenas reagir à emergência. “Proteger é criar condições para que a emergência não chegue mesmo a acontecer.”

Do esquecimento à “nova era”

Coube a Patrícia Bacelar, diretora do Núcleo de Acolhimento Familiar da SCML, traçar o percurso histórico de uma medida que Portugal criou cedo e durante décadas quase ignorou. O acolhimento familiar existe desde a década de 1970 e foi regulamentado pela primeira vez em 1984, quando o país foi pioneiro neste domínio. Depois, disse, “ficou adormecido, esquecido no tempo”, enquanto o sistema foi construindo um caminho fortemente assente no acolhimento residencial.

A viragem chegou em 2019, com o Decreto-Lei n.º 139/2019, que a responsável apelidou de marco de uma “nova era”,  e do qual se orgulha de ter ajudado a construir. Uma das inovações mais significativas é a possibilidade de os próprios familiares ou redes afetivas da criança servirem como família de acolhimento, preservando vínculos, identidade e continuidade emocional.

Os números, porém, continuam a exigir urgência. Existem quase 6000 crianças em acolhimento residencial no país, cerca de 1000 só no distrito de Lisboa. A Santa Casa realizou até à data 255 acolhimentos familiares, acompanhando atualmente 117 famílias. “Uma casa de acolhimento, por melhor que seja, por mais recursos que tenha, nunca vai conseguir substituir o colo, a atenção individualizada e o amor que uma família pode dar”, afirmou Patrícia Bacelar. “O direito de crescer em família não é negociável, não é opcional, não é um luxo.”

patrícia bacelar a falar nas conversas com impacto sobre acolhimento familiar
Patrícia Bacelar, diretora do Núcleo de Acolhimento Familiar da SCML

O testemunho que silenciou a sala: “É duro, é tramado, vai doer. E tem de doer”

Mariana Martins, mãe de três filhos biológicos que, juntamente com o marido, decidiu tornar-se família de acolhimento pela Santa Casa, foi direta desde o início. Recusou o rótulo de heroísmo com que a sociedade por vezes envolve quem acolhe e deslocou o foco para onde considera que ele realmente pertence: os filhos Francisco, Carmo e António, que aceitaram partilhar os pais, a casa e os irmãos com crianças que sabem que um dia irão partir. “São eles os heróis”, disse.

A convidada descreveu o acolhimento como “um ato de amor. Um amor louco e muito absurdo”, capaz de transformar para sempre a história de uma família, com laços inquebráveis, mas sem ilusões: “Não existe esta linha ténue de ‘é como se fosse vosso filho’. Não é. E ainda bem que não é, porque ele terá direito à sua família para sempre.”

Sobre a chegada do bebé diretamente do hospital, foi simples: “Com um pijama, uma chupeta, um dodot e um leite em pó pequenino, e nos dizem ‘tomem’ (…) é impossível isto não mexer com as entranhas.”

O relato culminou numa conversa com o filho António sobre a despedida iminente: “Mãe, quando o bebé for embora, eu vou chorar imenso.” E propôs um plano para o luto em família: chorar a ver um filme da Disney e comer um pote de açaí.

Mariana terminou com um apelo direto: “Estas quase 6000 crianças precisam de alguém. Não se pode ficar indiferente.”

mariana martins, família de acolhimento a falar nas conversas com impacto
Mariana Martins, família de acolhimento

Chegar antes do perigo

O painel “Antes da Rutura: quem chega primeiro e faz a diferença”, moderado pela jornalista Ângela Roque, da Rádio Renascença, reuniu três profissionais de terreno. Ana Polido, psicóloga na Unidade de Intervenção Familiar da SCML, descreveu o trabalho preventivo junto das famílias no seu meio natural de vida, atuando sobre sinais subtis de mudança comportamental nas crianças, antes que a situação de risco se torne perigo declarado. Patrícia Costa, vice-presidente do Projeto Alkantara, trouxe anos de presença contínua em Alcântara e a consciência de que as problemáticas originais persistem e se agravam. Já Susana Bernardo, diretora técnica da Pressley Ridge, sublinhou que a maioria das sinalizações ainda chega tarde: “O timing da intervenção é crucial.” E que a responsabilidade de olhar e sinalizar não é exclusiva dos técnicos: “Todos nós podemos ser agentes sinalizadores e temos de ter um olhar atento.”

quatro senhoras falam nas conversas com impacto sobre acolhimento familiar
Da esq. para a dta., Ângela Roque (Rádio Renascença), Patrícia Costa (Projeto Alkantara), Susana Bernardo (Pressley Ridge) e Ana Polido (Unidade de Intervenção Familiar da SCML)

“Ninguém protege sozinho”

O encerramento das Conversas com Impacto ficou a cargo de Rita Prates, vice-provedora da Santa Casa, que não escondeu o peso de trabalhar nesta área: decisões difíceis, longe dos holofotes, com elevado custo emocional. E reconheceu o que muitas vezes fica por dizer: que há um trabalho silencioso, diário e persistente que evita tragédias antes de elas acontecerem. “Proteger não é apenas responder à emergência, mas é criar condições para que a emergência não aconteça”, afirmou. E sublinhou que isso só é possível em conjunto: “Ninguém protege sozinho.”

A sessão terminou com a certeza de que proteger crianças é tarefa de todos, feita, muitas vezes, em silêncio, todos os dias, muito antes de qualquer rutura.

vice provedora da SCML a falar nas conversas com impacto sobre acolhimento familiar
Rita Prates, vice-provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Diversas especialidades médicas e cirúrgicas

Programas de saúde

Unidades da rede nacional

Unidades que integram a rede de cobertura de equipamentos da Santa Casa na cidade de Lisboa

Prestação de apoio psicológico e psicoterapêutico

Aluguer de frações habitacionais, não habitacionais e para jovens

Bens entregues à instituição direcionados para as boas causas

Programação e atividades Cultura Santa Casa

Incubação, mentoria e open calls

Anúncios de emprego da Santa Casa

Empregabilidade ao serviço das pessoas com deficiência

Jogos sociais do Estado e bolsas de educação

Ensino superior e formação profissional

Projetos de empreendedorismo e inovação social

Recuperação de património social e histórico das Misericórdias

Investimento na investigação nas áreas das biociências

Prémios nas áreas da ação social e saúde

Voluntariado nas áreas da ação social, saúde e cultura

Locais únicos e diferenciados de épocas e tipologias muito variadas

Linha de apoios financeiros a projetos de impacto social.

Ambiente, bem-estar interno e comunidade

Ofertas de emprego

Contactos gerais e moradas

Jogos sociais do Estado e bolsas de educação

Ensino superior e formação profissional

Projetos de empreendedorismo e inovação social

Recuperação de património social e histórico das Misericórdias

Investimento na investigação nas áreas das biociências

Prémios nas áreas da ação social e saúde

Voluntariado nas áreas da ação social, saúde e cultura

Locais únicos e diferenciados de épocas e tipologias muito variadas

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