Exposição Um Compromisso para o Futuro

A Exposição Um Compromisso para o Futuro, que esteve patente de maio a setembro de 2017, na Galeria de Exposições Temporárias da Santa Casa, comemorou os 500 anos da primeira edição impressa do Compromisso da Confraria da Misericórdia e a atualidade da sua mensagem.

 

Comissariada por Henrique Leitão, esta exposição integrou a primeira edição impressa do Compromisso da Confraria da Misericórdia, duas pinturas quatrocentistas jamais exibidas em Portugal e fotografias atuais sobre as Obras da Misericórdia.

A Exposição Um Compromisso para o Futuro organizou-se em três núcleos.

No núcleo inicial apresenta-se um exemplar da primeira impressão do Compromisso e exemplares de todas as edições quinhentistas, e ainda das edições posteriores até ao séc. XIX. Pretendeu-se, assim, evidenciar não só a atualidade das obras de misericórdia, mas também divulgar o texto e as diversas caraterísticas tipográficas dos vários exemplares.

 

O Compromisso da Confraria de Misericórdia, 1516.

O Compromisso da Confraria de Misericórdia, 1516

Lisboa: por Valentim Fernandes e Hermão de Campos (26 cm)
fl.2 e fl.2v
Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa
Cota: L.A.XVI.114

O 2º núcleo, inteiramente dedicado à iconografia da misericórdia, conta com um importante conjunto de obras nacionais e estrangeiras das quais se destacam duas pinturas quatrocentistas nunca antes exibidas em Portugal:

– Opere di Misericordia: Seppelire i morti, pertencente aos Museus do Vaticano, que faz parte de um conjunto de 6 tábuas que representam as Obras de Misericórdia e que foram executadas por Olivuccio di Ciccarello, em 1404, para a Igreja de Santa Maria da Misericórdia, em Ancona, destruída durante a Grande Guerra num bombardeamento.

 

Opere di Misericordia: seppellire i morti 1404

Opere di Misericordia: seppellire i morti, 1404

Olivuccio di Ciccarello (? – 1439)
Têmpera sobre madeira.
36,7 x 29,4 cm.
Museu do Vaticano
Pinacoteca Vaticana, nº inv. 40201.

 

Este pintor foi considerado um artista de primeiro plano da escola de Ancona, ativa entre os sécs. XIV e XV, num contexto tardo-gótico. Aliás, esta situação, está bem retratada, quando na comissão para executar os frescos da Santa Casa do Loreto é tratado como Magister Alegutius Cicarelli de Ancona.

Virgen de la Misericordia, atribuída ao “Maestro de Teruel”, propriedade do Museu de Arte Sacra de Teruel, Espanha, que é uma das obras mais significativas da pintura gótica dos Reinos Hispanos-Medievais, pela sua riqueza e originalidade iconográfica, bem como pela sua grande qualidade técnica, razão pela qual, até agora, nunca tinha sido autorizada a sua saída de Espanha.

De entre as obras nacionais, saliente-se a magnífica pintura quinhentista Virgem da Misericórdia, atribuída a Gregório Lopes e propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Sesimbra. Esta pintura é representativa da grande qualidade das encomendas efetuadas pelas Misericórdias portuguesas.

 

Virgen de la Misericordia

Virgen de la Misericordia, Primeira metade do séc. XV

Mestre de Teruel [atribuída a]
Têmpera sobre madeira.
133 x 93,5 cm.
Museu de Arte Sacra de Teruel, Aragão, Espanha
Nº de inv. Mus-020.

O último núcleo da exposição integra um conjunto de fotografias encomendadas a jovens fotógrafos portugueses, que ilustram a modernidade das obras de misericórdia, exemplo do apoio que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa continua a conceder à cultura e aos artistas nacionais.

Ao evocar o V Centenário da publicação do Compromisso, propõe-se ao visitante um olhar sobre o valor histórico e simbólico deste texto, mas também interpelá-lo para a atualidade da prática das obras de misericórdia, no contexto dos grandes desafios do século XXI.

 

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[Sem título]

Jorge Bacelar
2017
116 x 72,5 cm
Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

A possibilidade de misericórdia é o coração do pobre

Henrique Leitão

Para além dos aspetos institucionais, a impressão do texto do Compromisso, em 1516, também correspondeu à maior divulgação de um certo modo de entender a ideia de misericórdia. O conceito de misericórdia tem uma história antiga, que vem da antiguidade, e que foi profundamente afetado pelo cristianismo. A noção cristã de misericórdia – que está subjacente ao Compromisso, e também às obras de misericórdia, e, em certa medida, à ação das Misericórdias até aos dias de hoje — contém mais do que o desejo nobre e meritório de socorrer à infelicidade e miséria alheia. Supõe também, para o crente, uma certa maneira de viver, em resposta ao imperativo “sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc, 6, 36).

O dever de Misericórdia hoje

Guilherme d'Oliveira Martins

Hoje, mais do que nunca, o tema da Misericórdia é essencial. Crises sociais, dificuldades económicas, problemas de justiça e de eficiência apelam à coerência entre as palavras e os atos. Justiça e paz devem estar no centro do bem comum. Nas palavras do Papa Francisco «ninguém poder ser excluído da misericórdia de Deus» e cabe à Igreja ser «uma casa que acolhe todos e não recusa ninguém». Mas cada um de nós deve também intervir neste ato de Misericórdia. Todos devemos praticar as obras de Misericórdia pois estas relacionam-se com a necessidade de compreendermos que não estamos sós, temos os outros e eles são a outra metade de nós mesmos.

Pobreza, analfabetismo, mortalidade infantil, propagação de doenças infeciosas, isolamento, solidão, envelhecimento sem apoio, ausência de medidas de higiene, falta de proteção da água e carências no que à salvaguarda ambiental diz respeito, são alguns exemplos de causas que necessitam de obras de Misericórdia. É urgente que às ações políticas públicas, médicas e judiciais haja uma ligação à generosidade pessoal. Falar hoje de Misericórdia é fazer parte destas soluções – com altruísmo e profissionalismo.

As obras de Misericórdia espirituais também têm um papel preponderante. Dizem respeito à atenção e ao cuidado: o dever de educar, dar bom conselho, corrigir os que erram, consolar os que sofrem, perdoar os que nos ofendem, revestir-nos de paciência perante as injúrias e rezar a Deus pelos vivos e pelos mortos. Não podemos cruzar os braços e esperar que sejam os outros a encontrar soluções ou a terem obrigações. A noção de serviço público não é só um dever do Estado mas também da comunidade e das pessoas.

Não podemos ser indiferentes, devemos estar atentos aos outros. Falar de Misericórdia é, pois, e cada vez mais, relacionar a humanidade com as suas responsabilidades.

O Pentacentenário do primeiro Compromisso impresso: 1516-2016

Helga Jüsten

Estudo aprofundado sobre a materialidade e os aspetos tipográficos da primeira edição impressa d’ O Compromisso, no contexto da história da tipografia portuguesa do século XVI.

Reanalisa e lança um novo olhar sobre a questão da existência de uma contrafação (datada de cerca de 1543), da edição dada à estampa, pela primeira vez, em 1516.

Apresenta a revisão da literatura científica sobre este aspeto e procede a uma análise exaustiva e profusamente documentada das caraterísticas tipográficas dos exemplares, bem como das circunstâncias da sua edição.

Elenca exaustivamente todos os exemplares das duas edições (original e contrafeita) que hoje se conhecem, identificando as respetivas entidades custodiantes.

Subsídios para o estudo comparativo dos Compromissos da “Confraria de Misericórdia”: primeira metade do século XVI

Francisco d’Orey Manoel e Nelson Moreira Antão

Este artigo evidencia o Compromisso da Confraria da Misericórdia enquanto fonte documental, lançando algumas sugestões de análise e interpretação deste documento que, pela sua especificidade e caráter poliédrico, permite abordagens distintas nos mais variados ramos das Ciências Sociais e Humanas.

Procura incentivar a pesquisa e a investigação em torno deste documento fulcral, não só para história da Misericórdia de Lisboa, mas, também, para a compreensão do quotidiano, mentalidades, práticas religiosas e de assistência no século XVI.

Destaca a raridade, o valor patrimonial, o aparato decorativo, mas também e, sobretudo, o valor simbólico do Compromisso enquanto texto fundamental da matriz de atuação de uma Instituição que conta já com 519 anos de atividade ininterrupta.

Momentos de viragem: a fundação da Misericórdia de Lisboa e o seu primeiro Compromisso impresso de 1516

Isabel dos Guimarães Sá

A Misericórdia de Lisboa, medieval no que toca à observância das obras de misericórdia, cuja evolução é delineada em traços largos no capítulo, foi fundada num momento preciso, num tempo a seguir aos anos cruciais de 1496-97 em que se procedeu à conversão forçada dos judeus em Portugal. Fundadas no reinado de D. Manuel, prolífico em empreendimentos que procuravam uniformizar as instituições do Reino, como a publicação das Ordenações e dos forais novos, o tombamento das capelas e hospitais, e a própria publicação do Compromisso em 1516, destinado a vigorar noutras confrarias fundadas à imagem da de Lisboa, as Misericórdias rapidamente deram corpo a um sistema próprio de assistência aos pobres, que teria sido meramente local, se a expansão transoceânica o não tivesse expandido a todos os territórios onde se registou a presença de comunidades portuguesas. Não obstante a sua herança medieval, as misericórdias portuguesas fizeram parte de uma série de mudanças que ocorreram em tempos próximos, configurando uma nova época.

A Rainha D. Leonor e as obras de misericórdia

Lisbeth Rodrigues

A relação de D. Leonor com as obras de misericórdia desde há muito que é reconhecida. Este texto centra-se, justamente, nessa relação, discutindo o significado da doutrina e do programa das obras de misericórdia no contexto das ações da monarca. Os vários investimentos leonorinos no campo da assistência e no mecenato artístico/letras evidenciam uma mulher que, através das obras de misericórdia (“vida ativa”), pretendeu lograr uma verdadeira experiência mística (“vida contemplativa”). Este era, de resto, um tema caro a outras mulheres que, já antes de D. Leonor e, porventura, inspirando-a, haviam desenvolvido a sua espiritualidade em torno de ações em prol dos outros. A este respeito, a fundação do hospital de Nossa Senhora do Pópulo constitui um exemplo paradigmático da “vida ativa” da monarca e uma expressão clara do seu compromisso com a doutrina e programa das obras de misericórdia.

A Escritura das imagens. A narrativa didáctica das Obras de Misericórdia.

Celso Mangucci

A partir das últimas décadas do século XVI, os templos das Irmandades de Misericórdia foram progressivamente incorporando representações das Obras Corporais e Espirituais aos conjuntos de pinturas, frescos e azulejos, construindo um discurso abrangente, para dar a conhecer aos irmãos os diversos propósitos da caritas cristã. Nesse texto, Celso Mangucci procura interpretar o significado das Obras de Misericórdia, muito para além da imagem moderna da Instituição de Assistência Social, para assim retomar os laços com a moral cristã, matriz indissolúvel que une, num mesmo projeto salvífico, os misericordiosos e os pobres, as obras de misericórdia corporais e espirituais com a redenção da vida eterna. Nessa interpretação compreendermos também como, num longo processo de tradição cultural, a Retórica afirma-se como uma disciplina orientadora do discurso também para as Artes Plásticas.

A tábua da Virgem da Misericórdia do Museu de Arte Sacra de Teruel

Pedro Luis Hernando Sebastián

Texto que propõe uma interpretação e explicação do simbolismo subjacente àquela que é considerada uma das pinturas mais significativas da arte gótica da Península Ibérica.

Destaca o êxito que a iconografia da Virgem da Misericórdia teve no período gótico, estabelecendo uma comparação com outras pinturas com a mesma representação, produzidas na mesma região (Sul do reino de Aragão) e no mesmo período cronológico.

Decompõe os diversos significados simbólicos que possuem as figuras, gestos, posturas anatómicas, vestuário, cores, cenas, interações e objetos representados na pintura.

Conclui que a linguagem simbólica da composição possui um claro objetivo moralizador – tornar clara a dialética entre o bem, a proteção divina e o mal, assumindo a imagem da Virgem da Misericórdia, central em toda a composição, o papel de protetora da Humanidade face aos sete pecados mortais.

Aborda, por fim, a autoria da obra, uma questão ainda em aberto e difícil de determinar com algum grau de certeza, em função da escassez de fundos documentais decorrente das vicissitudes e destruição provocadas pela Guerra Civil Espanhola.