Ao ponto de encontro habitual, o Passeio Ribeirinho na zona das Docas dos Olivais, a primeira a chegar é Josefa. Não vem com pressa. Chega devagar, como quem já conhece a rotina. “Venho apanhar ar”, diz. É a segunda vez que participa. Da primeira gostou tanto que decidiu repetir.
Pouco a pouco, outras pessoas vão chegando. No total, são seis. O percurso é simples: até à doca dos Olivais e voltar. São, mais ou menos, 15 minutos por cada volta. O suficiente para sentir o vento no rosto, conversar e, sobretudo, sair de casa. Especialmente depois de dias fechados por causa das várias tempestades.
No centro da atividade está uma bicicleta diferente. Adaptada, robusta, pensada para quem tem mobilidade reduzida ou nunca teve oportunidade de pedalar. Luís Reis, responsável pelo Centro de Promoção Social da PRODAC, equipamento da Santa Casa, e o condutor, desta vez, da bicicleta, explica e exemplifica: “O estrado baixa para facilitar a entrada”, sendo que há todo um pequeno ritual antes da partida: verificar a segurança, ajustar os apoios para os pés, colocar uma mantinha para proteger do frio e oferecer um chá quente, feito propositadamente para a ocasião.
Para muitos, é mais do que um passeio. É uma primeira vez para andar neste meio de transporte. Maria da Luz observa com atenção enquanto a equipa prepara a bicicleta. Está prestes a subir para a primeira volta. “Vim para me distrair, para apanhar um bocadinho de sol”, conta, com um sorriso tímido.
Vai partir na primeira volta, ao lado de Josefa. Quando regressam, as expressões dizem mais do que qualquer descrição. O sorriso aberto chega antes das palavras.
Mais pessoas esperam pela sua vez. Zulmira e Elvira experimentam pela primeira vez. Domingas e Gracinda já são repetentes. Quando chega a sua vez, Domingas brinca com a situação: “Eu já vim muitas vezes. Já tenho passe”, diz, divertida.
A bicicleta não fica ali parada muito tempo. Depois daquela manhã, segue para a Mitra, onde, no dia seguinte, um voluntário ajudará outros utentes a passear. Na semana a seguir, estará noutro local, noutra atividade. Porque o objetivo é simples: que o recurso circule e chegue ao maior número de pessoas possível.
Uma bicicleta para todos
O projeto chama-se “Bicicletas e Companhia” e nasceu de uma ideia simples que foi ganhando forma ao longo dos anos. A base está numa cicloficina comunitária que funciona na PRODAC desde 2018. Ali, qualquer pessoa pode aprender a reparar a sua própria bicicleta. Conta Luís Reis: “Não é uma oficina convencional. A ideia nunca foi reparar bicicletas para as pessoas, mas sim que sejam elas a aprender a fazê-lo.”
Ferramentas, peças e orientação estão disponíveis para quem quiser aprender. O uso do espaço é gratuito. Em troca, quem participa é convidado, sem obrigatoriedade, a dedicar algum tempo a ajudar outros.
“Quando alguém usa a oficina, pedimos apenas que disponibilize, por exemplo, meia hora por semana para ajudar outra pessoa. É uma lógica de troca solidária”, diz.
A evolução desse espírito comunitário levou à criação do projeto atual, financiado através do programa “Gerações Solidárias” da Misericórdia de Lisboa. Com esse apoio foi possível adquirir a bicicleta adaptada. “É uma bicicleta com um estrado que baixa e permite que pessoas com andarilho ou mobilidade muito reduzida consigam subir. Há pessoas que nunca andaram de bicicleta na vida e aqui conseguem experimentar”, explica Luís Reis.
O funcionamento do passeio tem uma particularidade importante: sempre que possível, quem conduz a bicicleta é alguém que já conhece a pessoa transportada. “Nós preferimos que a instituição ou o grupo que traz os utentes traga também alguém para conduzir. Nós explicamos como funciona a bicicleta e essa pessoa vai passear com eles”, explica Luís Reis.
O resultado é uma experiência mais próxima e mais humana. “Torna-se mais empática porque são pessoas que já têm uma relação”, acrescenta.
Nestes passeios, há histórias que ficam na memória. Como a do senhor Vicente, antigo camionista que perdeu a visão já em adulto. Um dia pediu para conduzir a bicicleta. “Com muito cuidado, fomos ajudando e ele conseguiu. Foi um momento muito ternurento, para ele e para nós, ao vermos a comoção de alguém que tinha perdido a capacidade de conduzir, de fazer aquilo que era a sua profissão, e voltar a sentir entusiasmo, ainda que diferente, por poder conduzir um veículo”, recorda Luís Reis.
Mais do que pedalar
Enquanto a bicicleta regressa de mais uma volta, o grupo conversa, bebe chá e comenta a experiência. Há risos, histórias e a promessa de regressar na semana seguinte.
Luís Reis observa o movimento com satisfação. Para ele, o projeto é simples na forma, mas profundo no impacto. “Se temos um recurso destes, então devemos utilizá-lo ao máximo para a comunidade”, diz.
A bicicleta, afinal, é apenas o ponto de partida. O verdadeiro objetivo é outro: garantir que ninguém fica para trás, nem em casa, nem na vida do bairro. E isso percebe-se facilmente quando a bicicleta regressa de mais um passeio. Porque, no final, há um detalhe que se repete sempre: os sorrisos.