Como nasceu
O Café Memória chegou a Portugal em 2000, trazido pela Alzheimer Portugal e pela SONAE, inspirado em modelos britânicos. A ideia era simples e profundamente humana: criar um café, não uma instituição, onde pessoas com problemas de memória e suas famílias pudessem sentir segurança, compreensão e apoio.
À Santa Casa, chegou em 2014. Cristina Luz, coordenadora da iniciativa, explica: “Recriamos mesmo o ambiente de um café. Aqui vêm pessoas com demência, familiares, cuidadores. É um espaço seguro onde oferecemos informação, apoio e estimulação.”
Informar e estimular
O Café Memória divide‑se em duas grandes vertentes: informação e estimulação cognitiva.
Para a primeira, são convidados especialistas em demências (como médicos) que explicam o que esperar, que direitos existem, que respostas há na cidade e que estratégias podem ajudar no quotidiano. “Queremos dar armas aos familiares”, sublinha Cristina. Informação reduz o medo e ajuda cada cuidador a sentir‑se menos sozinho.
Na segunda vertente, e para as pessoas que já vivem com demência, há atividades de treino de memória e exercícios específicos que promovem concentração, interação e bem‑estar. “É também um espaço para atrasar, dentro do possível, o avanço dos sintomas. E para que sintam que continuam a participar”, explica a coordenadora.
Cada encontro dura cerca de duas horas e começa sempre com acolhimento individual.
“Fazemos questão de falar um bocadinho com cada pessoa”, diz Cristina. Depois vem uma dinâmica de “quebra‑gelo” para que todos se conheçam e percebam que não estão sozinhos. Há sempre ali alguém que partilha os mesmos receios, desafios, perguntas.
Para cada sessão há um tema, preparado pela equipa (enfermeira e duas assistentes sociais), em articulação com a Alzheimer Portugal. Os temas vão de questões práticas (“Como passei o Natal?”, por exemplo, foi o último) a apresentações de serviços da Santa Casa, como o Espaço ComVida.
A meio da sessão, um momento especial: o lanche com verdadeiro café, chá e bolos (graças ao apoio da Delta Cafés e da loja Celeiro), a que se juntam conversas espontâneas. “Criam‑se amizades”, diz Cristina. “Já vimos pessoas que vêm juntas, que combinam cafés, que continuam a apoiar‑se fora daqui.”
Nestas sessões, há sempre momentos marcantes. Como pessoas a emocionarem-se por algo que se lembram ou a constatarem a sua situação de demência: “Há emoções, claro que há”, admite Cristina. Sempre que alguém se emociona ao falar do seu percurso, a equipa retira a pessoa para um acompanhamento mais próximo. “Queremos que aqui se sintam seguras. Se for preciso encaminhar para outro serviço, também o fazemos.”
Sessão após sessão, criam‑se laços, ganha‑se confiança. “É gratificante ver as pessoas regressarem. Sinal de que este espaço faz sentido.”
Cristina Luz estima, que ao longo dos últimos 11 anos, mais de mil pessoas já tenham participado. E nem nos anos da pandemia de covid-19 as sessões pararam. Não houve encontros presenciais, mas fizeram-se pela plataforma online Zoom.
Mas é preciso continuar a trabalhar para que mais pessoas venham. O maior desafio? Chegar a mais cuidadores. “São pessoas que trabalham, que chegam cansadas e muitas vezes não conseguem vir. Mas queremos que percebam que isto é importante, é um espaço para eles também.”
A prioridade é clara: aumentar o número de participantes e reforçar o impacto do projeto. “O nosso objetivo é que as pessoas sintam que este espaço é delas. Que podem falar, partilhar, rir, emocionar‑se. Que aqui há apoio, há pares e há caminho.”
É essa a essência do Café Memória. E, para 2026, está já previsto um novo protocolo para dar continuidade ao projeto.
Um projeto nacional com impacto local
O Café Memória não é exclusivo da Santa Casa. Existe em muitas cidades e instituições do país. Em Lisboa, há polos em vários pontos. E, todos os anos, há um encontro nacional com todas as equipas do país, para refletirem e construírem o em conjunto o futuro da iniciativa. Uma iniciativa que cuida da memória, mas, sobretudo, das pessoas que a vão perdendo.
E, já sabe, se quiser pode participar nestes encontros todas as segundas quartas-feiras de cada mês, no espaço CLIC-LX, na Rua Nova da Trindade, n.º15, em Lisboa. A entrada é livre e não precisa de se inscrever.