É mais um dia agitado na cidade de Lisboa e Luís Fernando Lopes está no sítio de sempre, à espera dos clientes, como faz há mais de 40 anos. O quiosque do Largo Trindade Coelho é muito requisitado logo pela manhã, embora a venda de jornais já não seja o principal motivo. As letras que nos dias de hoje já não atraem os transeuntes são as mesmas que, ao contrário, continuam a seduzir Luís. Verte-as quase diariamente em pequenos papelinhos, sob a forma de poemas, e guarda-os em montículos para o que der e vier.
Agora com 66 anos, a ligação de Luís às letras veio de berço: “Mudaram-me as fraldas aqui no quiosque, porque isto já era do meu bisavô e a minha mãe veio para cá pouco tempo depois de eu nascer. E depois ela sempre me incentivou a escrever. Normalmente fazia redações e tinha Bom ou Bom+. Comecei a escrever, mas não mostrava a ninguém. Cheguei a começar três romances, um deles tem seguramente uns 30 anos, mas não consegui acabá-los, porque requer muito tempo”.
O nascimento de um poeta
Décadas mais tarde, a assustadora pandemia que confinou o país e o mundo deu-lhe forçosamente mais tempo livre. Fechado no quiosque de sempre, mas sem os clientes habituais, afastados pelas imposições sanitárias, Luís viu-se sozinho com a escrita e os poemas começaram a brotar. Sempre nos pequenos papelinhos, em jeito de apontamentos, dali nasceram já dois livros, curiosamente por sugestão de duas clientes, funcionárias da Santa Casa.
“O primeiro chama-se ‘O quiosque tem uma janela e eu vejo o mundo através dela’ e o segundo ‘O mundo da minha janela onde Lisboa é a mais bela’. Ambos têm a palavra mundo, porque o mundo é tudo o que vejo a partir desta janela”, explica o poeta. Ainda sem planos para isso, tem, no entanto, já pensado um título para um eventual terceiro livro: ‘O mundo no meu verso entre o belo e o perverso’.
Figura bem conhecida nos arredores do Largo Trindade Coelho, as obras do poeta do quiosque ganharam fama e foi convidado a escrever regularmente num blogue.
“Escrevo de 15 em 15 dias e nunca falhei, isto há já quatro anos. Recentemente escrevi sobre o fim dos jornais em papel. Vou deixar de vender jornais, vendo um ou dois jornais por dia… Escrever isto foi, como lhe chamo, uma lamúria contraditória: estou a escrever num jornal online sobre o fim dos jornais em papel”, frisa Luís, destacando o paradoxo.
A inspiração na Santa Casa
Há mais de 40 anos diante da Santa Casa, é natural que a Misericórdia de Lisboa tenha sido – e continue a ser – uma grande fonte de inspiração para o poeta do quiosque: “A Santa Casa está sempre muito presente nos meus poemas. Já escrevi sobre muita coisa: a história da Misericórdia, o Museu e a Igreja de São Roque, a Lotaria…”.
Mais recentemente, a exposição “Filhos de Todos… Filhos de Quem?”, sobre os expostos da roda de Lisboa, patente na Galeria de Exposições Temporárias do Museu de São Roque, despertou-lhe a atenção e mereceu-lhe uma visita, que imediatamente deu frutos no papel: nasceu um poema com o mesmo nome desta mostra.
“O assunto interessa-me muito e também vi que tinha obras de grandes artistas, como a Paula Rego, por isso fui visitar e a exposição está espetacular! E logo depois escrevi o poema. Foi como saiu, praticamente à primeira”, confessa.
O tema dos expostos não ficará por aqui na escrita de Luís, que já pensa “num conto maior”, uma espécie de auto. Mas quando tiver tempo, porque, entretanto, está já outro cliente a abeirar-se da janela do quiosque no Largo Trindade Coelho e o poeta do quiosque volta a arrumar o montículo de papelinhos.
"Filhos de Todos… Filhos de Quem?"
Sabe-se lá o desgosto
de uma mãe em aflição
ao deixar o bebé exposto
na roda para adoção.
Um ato de desespero
mas também revelador
de um certo esmero
indicativo de amor.
Agarrada à esperança
de um dia o poder resgatar
deixava um sinal de lembrança
para assim o identificar.
Resgatados da morte
filhos de todos… de quem?
Filhos da pouca sorte
mas filhos de alguém.
É sabida a fortuna
do que nasce aconchegado
já grande é a lacuna
de quem nasceu enjeitado.
Luís Fernando Lopes