No Centro Social Polivalente de S. Cristóvão e S. Lourenço, da Santa Casa, o tempo parece ganhar um ritmo diferente a cada 15 dias. Se, nas manhãs das quartas-feiras, uma das salas se enche com canções populares, a mesma sala, nas tardes do mesmo dia, é reservada e organizada para uma atividade que faz brilhar os olhos de quem a pratica: o bowling adaptado.
O espaço transforma-se para acolher mais de 20 utentes, entre os que jogam e os que querem, apenas, fazer de ‘claque’. Todos apoiados de perto por uma monitora e três auxiliares de geriatria de apoio à comunidade (AGAC). Como explica Ana Paula Sousa, responsável pela animação sociocultural, não se trata apenas de um desporto, mas de “uma atividade de lazer adaptada a esta população.”
Aqui, as regras rígidas do jogo original dão lugar à inclusão. Porque cada utente tem condições físicas e necessidades muito diferentes, o jogo é feito sentado, utilizando as mesmas bolas macias do boccia (actividade que acontece intercalada a cada 15 dias com a do bowling), as únicas que, depois de alguns testes, se revelaram como as ideais para as mãos daqueles participantes. Com três tentativas para derrubar os dez pinos, o objetivo é o strike, mas o verdadeiro prémio é a participação.
A tarde começa ao som de música animada e alguma expectativa. A senhora J. “abre as hostilidades”; embora falhe a primeira bola, consegue derrubar oito pinos na segunda, terminando a sua vez com um ar satisfeito. Logo a seguir, a senhora G. mostra a sua mestria: três strikes seguidos, um feito que arranca aplausos da sala.
O senhor D. também deixa a sua marca, derrubando sete pinos com precisão. E a senhora E., com um problema grave de visão, não permite que a escuridão a afaste do jogo. Com humor e ternura, embala a bola e brinca: “Abre os olhos, vê lá por onde vais.”
Para além do divertimento óbvio, esta atividade é um pilar de saúde para os utentes do Centro. Ana Paula Sousa explica: “O foco principal é manter a destreza motora e a concentração através da estimulação e coordenação, garantindo que o jogo respeite a postura corporal de cada um para que ninguém fique de fora devido às suas limitações, ao mesmo tempo que promove o bem-estar emocional, promove uma socialização que combate o isolamento e eleva o humor de todos.”
Dos tempos em que se improvisava com garrafas de água até aos jogos de verão no terraço (com barras laterais para guiar o caminho), o bowling, neste espaço da Misericórdia de Lisboa, é a prova viva de que, com carinho e adaptação, todos podem derrubar as barreiras que a vida lhes impõe.