Valor T, há um ano a incluir pessoas com deficiência no mercado de trabalho: “Ter conseguido um emprego é uma conquista”

Valor T completa um ano de apoio a pessoas com deficiência na construção de carreiras profissionais. Ângelo e Alexandre conseguiram o que tanto ambicionavam: “ser como as outras pessoas”.

Ângelo Pereira dá por ele a olhar em redor. Observa o entra e sai dos clientes da loja Stradivarius, no centro comercial UBBO (Amadora), e a forma cuidadosa como aqueles que serão os seus novos colegas de trabalho manuseiam as roupas. Quando Ângelo Pereira recebeu um telefonema da Valor T , não esperava que do outro lado da linha fosse anunciada a oportunidade que tanto queria. A técnica da agência de empregabilidade para pessoas com deficiência da Misericórdia de Lisboa indicava que era chegada a hora de o jovem regressar ao mercado de trabalho.

Para trás ficam os corredores do Instituto de Oftalmologia Dr. Gama Pinto, local onde Ângelo trabalhou como assistente técnico entre agosto de 2020 e julho de 2021. Naquela unidade de saúde, não existia nada no departamento de logística que não passasse pelas suas mãos. A gestão de stocks e o armazenamento de materiais eram parte das suas tarefas diárias. Foram também essas competências que fizeram com que o Grupo INDITEX avançasse para a sua contratação. O dia 29 de abril marca, assim, o primeiro dia de Ângelo como funcionário da Stradivarius, uma das marcas deste grupo empresarial.

Aos 22 anos, o currículo de Ângelo também se faz de dois estágios curriculares em informática. A paixão pelos computadores apareceu quase como necessidade, como uma área capaz de responder às dificuldades que a paralisia cerebral impõe. “Devido à dificuldade que tenho no lado direito do corpo, aconselharam-me a seguir informática. Fiz dois estágios na área, que me permitiram adquirir conhecimentos de programação e até de atendimento ao público”, conta sem esquecer que desde muito novo que “ambicionava trabalhar na área de multimédia”, mas que a paralisia cerebral obrigou-o a abandonar o sonho.

Permitir que os sonhos não sejam uma miragem e quebrar as barreiras existentes entre pessoas com deficiência e o mercado de trabalho são parte fundamental da missão da Valor T. Ângelo teve conhecimento da agência de empregabilidade através de um amigo que, por vezes, também é rival. “Foi um amigo, que joga basquetebol de cadeira de rodas na equipa de Alcoitão, com quem por vezes compito, que me falou da Valor T e das oportunidades que oferecem”, revela.

A Federação Portuguesa de Basquetebol intitula Ângelo de “benjamim da Seleção Nacional” e como “um dos nomes a ter em conta no presente e no futuro do basquetebol em cadeira de rodas português”. Foi aos 11 anos que começou a jogar basquetebol em cadeira. Na altura era uma criança com o sonho de chegar à seleção nacional. E conseguiu. “Estou na Seleção Nacional A e na Seleção sub-22”. Este ano, em junho, à competição da categoria sub-22, na Finlândia, e a presença de Ângelo na equipa que vai representar Portugal é já um dado adquirido. Hoje, aos 22 anos, onze anos depois daquele miúdo que começava uma carreira no basquetebol de cadeira de rodas, Ângelo renova o sonho: “Vou para a Finlândia com a ambição de conquistar o título de campeão europeu”.

A paixão pelo desporto une Ângelo e Alexandre. Enquanto um tem no basquetebol o seu deporto de eleição, o outro entra nos pavilhões de voleibol com a mesma vontade de sempre. Alexandre tem Síndrome de Asperger, uma doença que afeta a forma como entende o mundo, mas que nunca o impediu de perceber o amor que tem pelo voleibol. Aos 26 anos, conta já com 15 anos de carreira. Neste momento, representa o Clube de Voleibol de Oeiras. Mas não só o desporto liga estes dois jovens. Há muito mais que os une: ambos procuram superar-se, todos os dias.

Alexandre desempenha funções na loja Pingo Doce

Alexandre seguiu o conselho da mãe. Juntos, decidiram que a Valor T seria uma plataforma capaz de quebrar as barreiras que encontra sempre que deseja ingressar no mercado de trabalho. “Estava a precisar de trabalhar, muito mesmo. Queria conseguir um trabalho para poder conquistar alguns objetivos que tenho”, revela. No topo da lista de desejos que pretende cumprir a curto prazo está a obtenção da carta de condução, o que lhe permitirá sentir que consegue “fazer o que as outras pessoas fazem”.

Começar a trabalhar no Pingo Doce é regressar a uma casa que bem conhece. Sem conseguir situar no tempo, Alexandre recorda a altura em que desempenhava funções na charcutaria daquela marca do Grupo Jerónimo Martins, na freguesia de Carcavelos. Agora, as funções são diferentes. No Pingo Doce da Parede, Alexandre é responsável pela reposição da fruta e por verificar se está em condições de ser vendida ao cliente. Sempre que o tempo sobra, ajuda colegas de outras secções a efetuarem as tarefas.

“Sinto-me muito bem em trabalhar aqui. Venho sempre 30 minutos antes da hora de entrar ao trabalho, porque sinto-me muito bem aqui. Para mim estar a trabalhar, ter conseguido um emprego, é uma conquista”, confessa.

 

Empresas mais inclusivas com a ajuda da Valor T

Há um ano, a Valor T anunciava a sua chegada para ajudar, apoiar e suportar pessoas com deficiência na construção de carreiras profissionais estáveis e adequadas às capacidades de cada um. Hoje, a missão da agência de empregabilidade da Misericórdia de Lisboa está a ser cumprida. O objetivo de potenciar talentos e de apoiar as empresas no processo de integração de pessoas com deficiência é parte do trabalho diário que as equipas da Valor T desenvolvem juntos de candidatos e empregadores.

Em 2022, a agência de empregabilidade contabiliza 1256 candidatos acompanhados, 947 entrevistas realizadas e tem já 278 candidatos em fase de seleção e recrutamento com as empresas. Desde o seu lançamento, há um ano, 154 grupos empresariais efetuaram registo na plataforma Valor T, sendo que ajudou 12 empresas a integrarem pessoas com deficiência nas suas equipas.

A INDITEX, grupo responsável por marcas como a Zara ou a Stradivarius, juntou-se à Valor T nesta missão de derrubar muros no que à contratação com pessoas com deficiência diz respeito. Através do projeto “Eu Incluo” o grupo prevê integrar 110 pessoas nas lojas das diferentes marcas do grupo, de norte a sul do país.

Neste percurso mais inclusivo, a INDITEX encontrou a Valor T, com quem acredita que será possível cumprir os objetivos definidos pelo grupo. “Contactámos a Valor T, de modo a obter suporte na identificação de perfis adequados à empresa, mas também no apoio ao acompanhamento na integração das pessoas nas nossas lojas. Neste momento, já estamos a integrar pessoas que nos foram indicadas e apresentadas pela equipa da Valor T”, explica João Antunes, responsável pela aquisição de talentos do Grupo INDITEX.

 

Verónica Soares Franco, membro da Comissão Executiva do Grupo Pestana, partilha da opinião de João Antunes: com a Valor T, a integração de pessoas com deficiência no mercado de trabalho fica mais fácil. A associação do Grupo Pestana à Valor T acontece, sobretudo, na aposta do grupo hoteleiro no recrutamento inclusivo, ainda que, ao longo dos anos, o Pestana tenha integrado pessoas com deficiência em hotéis, por exemplo na Madeira ou em Cascais.

“Esta aproximação à Valor T pode ser benéfica para ambas as partes. A Valor T pode trazer-nos aqui toda a sua experiência nas diferentes fases, desde do envio da candidatura à integração nas nossas equipas. Ainda estamos numa fase de início de parceria, mas esperançosos que seja uma mais-valia para todos. A grande vantagem do nosso grupo é que estamos presentes em vários pontos do país, o que permite incluir pessoas de diferentes localidades, seja do continente ou das ilhas”, revela.

INDITEX e Grupo Pestana pretendem que a inclusão de pessoas com deficiência nas empresas seja feita de forma plena, que se revelem verdadeiros casos de sucesso. Para isso, cada funcionário integrado terá um tutor responsável, que recebeu formação, e que será responsável por incluir estas pessoas na empresa. Nesta tarefa de bem integrar, ambos os grupos têm efetuado ações de formação com as diferentes equipas, onde são reiteradas boas práticas de inclusão no trabalho, de modo a permitir que colaborador se sinta 100% integrado.

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