Uma dor de cabeça intensa. Falta de força nas mãos. Pequenos sinais do corpo que indicavam que algo não estava bem. E não estava. Naquele dia 26 de junho de 2011, uma trombose venosa cerebral atirou Diana Wong Ramos para a cama de um hospital, primeiro no São José, depois no Hospital Fernando da Fonseca e, por fim, para o Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, o equipamento da Misericórdia de Lisboa que é carinhosamente apelidado de CMRA.
Foi no Alcoitão que permaneceu longos meses. Sem mexer os braços e as pernas, com sequelas no rosto, com ajuda para fazer quase tudo, desde o mais pequeno e corriqueiro gesto do quotidiano, como limpar uma lágrima. Olhando para trás, para aqueles longínquos tempos, não restam dúvidas de que o período em que permaneceu no CMRA foi um tempo de combate e de aprendizagem, de fragilidade intercalada com força, de desânimo versus luta.
“Acredito que, havendo empatia, fica mais fácil! Nunca, em nenhum momento, os profissionais do Alcoitão me fizeram sentir um ‘caso perdido’ ”, sublinha Diana, nesta viagem ao passado.
Desde então, muito mudou na vida desta ex-jornalista de uma conhecida e antiga revista cor-de-rosa, a Nova Gente. Na sua segunda vida, nesta nova oportunidade que lhe foi oferecida, Diana tornou-se um dos rostos nacionais mais conhecido dos sobreviventes de AVC, fazendo parte do grupo de coordenadores nacionais para a divulgação e implementação do Plano de Ação para o AVC na Europa 2018-2030. Enquanto “dá a cara” pelas vítimas de AVC e partilha a sua experiência, espera contribuir para que os cidadãos possam detetar precocemente os sinais da doença. Uma doença que é a principal causa de morte e incapacidade em Portugal, com cerca de 70 casos novos por dia, que faz encher as camas do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão.
O Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão assinala hoje, dia 20 de abril, 60 anos desde que recebeu o primeiro utente. Erguido com o auxílio das receitas do Totobola, o centro tem sabido adaptar-se às necessidades dos milhares de doentes que por ali passam
Talvez por isso, Diana não se canse de elogiar os que trabalham no Alcoitão, recordando sempre o humanismo e a dedicação dos profissionais, assim como muitos e muitos episódios que hoje, tal como então, lhe enchem o coração: “Recordo o carinho com que me acolheram, não só a mim, como à minha família. Os meus filhos, na altura com 9 e 7 anos, iam visitar-me todos os finais de tarde e, apesar das circunstâncias, divertíamo-nos muito a jogar Boccia com os restantes utentes”, relembra.
Acima de tudo, Diana destaca “a gratidão e os amigos” que leva para a vida, assim como as muitas pessoas que “renascem graças ao Centro de Reabilitação de Alcoitão”. As lembranças não têm fim e surgem ainda mais fortes nesta altura, em que se assinala mais um aniversário (os emblemáticos 60 anos de existência) do CMRA.
“Quando partilho o meu testemunho pessoal de sobrevivente de AVC, o meu objetivo principal é passar uma mensagem de esperança. Vivi momentos muito difíceis, houve alturas em que pensei nunca mais recuperar a minha independência, mas graças ao programa de reabilitação multidisciplinar de que usufruí no Centro de Alcoitão, e também graças ao meu trabalho e força de vontade, sem esquecer o apoio incondicional do meu marido e nossos filhos, consegui fazer o ‘luto do AVC’! Um dos lemas da PT.AVC é precisamente “Com o AVC a vida não termina, quando muito adequa-se!”, refere Diana Wong Ramos.
Decorrida mais de uma década desde que esteve internada no CMRA, muito mudou na vida de Diana. Fundadora da Associação Portugal AVC, desde 2017 que organiza as sessões mensais daquela entidade no Alcoitão, como aquela que ocorreu em fevereiro passado e na qual esteve presente a contar a “sua história”. Por lá já passaram centenas de pessoas, que partilham sentimentos, experiências, dúvidas e dor relacionadas com a doença, e com quem mantém um contacto próximo. A importância destes encontros é inegável, sobretudo para quem está a aprender a viver ou a recuperar de um AVC.
“O Acidente Vascular Cerebral é a principal causa de morte e invalidez no nosso país, e quando uma doença impactante como esta nos bate à porta, é impossível não repensarmos prioridades… Na altura [em 2011] não havia nenhuma associação à qual pudéssemos recorrer para retirar dúvidas, encontrar informação prática e foi com esse intuito que, juntamente com outros sobreviventes de AVC – e também alguns profissionais de saúde que se quiseram juntar – formámos a PT.AVC-União de Sobreviventes, Familiares e Amigos”, explica Diana, admitindo que, durante o seu internamento, gostaria de ter usufruído destes convívios entre pares.
“No entanto, também não escondo o orgulho que sinto por poder proporcionar estes momentos aos sobreviventes de AVC – e também seus familiares – que vou conhecendo no Centro de Reabilitação de Alcoitão”, acrescenta.
Casos como o de Diana Wong Ramos repetem-se no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, com mais ou menos sucesso. As histórias de quem lá está ou por quem já lá passou são infinitas. E ainda que cada história seja uma história, todas diferentes e com finais distintos, alguns pormenores são comuns a quase todas as pessoas que “renasceram” em Alcoitão: a gratidão de quem lá esteve, o humanismo de quem lá trabalha e os amigos adquiridos nesses momentos difíceis, os quais permanecem na “segunda vida”.
Impacto dos AVC´s em Portugal:
- Aproximadamente 25 a 30 mil internamentos anuais;
- Cerca de 35% a 41% dos sobreviventes ficam dependentes de terceiros para atividades básicas;
- Existe um risco elevado de recorrência, tornando a prevenção (estilo de vida, medicação, etc.) essencial após o primeiro evento.